A criança com deficiência visual cortical aprende diferente

18/02/2019 0 Por Maria Amélia M. Franco
A criança com deficiência visual cortical aprende diferente

O que faz de um gato um gato?

Ora, aonde quero chegar com essa pergunta? Quero explicar para você que a capacidade de perceber as características de um animal, de um objeto e outra coisa qualquer está relacionada a como o cérebro processa a informação visual, tátil e/ou auditiva para seu reconhecimento.

Parece natural que apenas expondo a criança a diferentes imagens – as indicando, as nomeando e as relacionando com o objeto concreto repetidas vezes – ela aprenda a diferenciar um gato de um cachorro. Ou uma colher de um garfo… e assim por diante. Ela percebe espontaneamente as diferenças. Ela compreende que não é a cor amarela que faz do sol, um sol. Ela poderá ver sois de diferentes cores e estilos e ainda perceber na gravura o sol.

Mas nem sempre é assim, como é verificado na avaliação da criança com deficiência visual cortical – DVC. Saber o que faz de um gato um gato pode ser mais difícil do que você pensa! E ainda mais difícil reconhecer que um gato-objeto continua sendo um gato em um desenho 2D.

Isso tem a ver com a saliência visual. Com a habilidade de separar o elemento de seu contexto, sem que ele e o fundo pareçam uma cena confusa e sem sentido (complexidade visual). Além da discriminação visual de cada coisa que compõe o todo, e de outros aspectos visuoperceptivos que permitem diferenciá-las uma a uma em todo o cenário.

É através da saliência visual que a criança é capaz de direcionar o olhar, distinguir e prender sua atenção em um elemento em detrimento de outro.

Reduzindo a complexidade para a criança com deficiência visual cortical

As informações que compartilho hoje são inspiradas no livro Cortical Visual Impairment – an approach to assessment and intervation. Eu super recomendo essa obra da Dra. Christine Roman, que é autoridade sobre deficiência visual cortical.

Já falamos sobre esse assunto na publicação intitulada Deficiência visual cortical: a criança parece não ver, mesmo com olhos saudáveis. Recomendo ler para conhecer ou relembrar os aspectos concomitantes que caracterizam o diagnóstico! Principalmente, porque eles estão inter-relacionados com as barreiras de aprendizagem apresentas aqui.

As dificuldades

  • com a complexidade visual,
  • com aquilo que é novo ou não lhe é familiar e
  • com a visualização à distância

tem tudo a ver com a capacidade da criança reconhecer ou não um gato (como comentei acima).

Primeiro, só um gato!

Para uma criança com deficiência visual cortical, você deve pensar desde a complexidade do objeto até a complexidade do fundo onde ele está sendo mostrado. Ainda, pensar na concorrência de estímulos visuais, tácteis, auditivos e olfativos.

O brinquedo junto a outros em uma prateleira ou sobre um tapete estampado é um exemplo de complexidade visual. Porém ainda que o fundo seja neutro, a complexidade pode persistir.

Complexidade do objeto e do fundo – Um simples brinquedo em si pode ser complexo demais! Com muitas informações: mais de uma forma associada, diversidade de cores, vários elementos sensoriais.
Já uma bola de uma única cor sólida pode ser muito fácil de ser identificada (especialmente se for sua cor de preferência). Da mesma forma, o objeto em relação ao fundo.

 

Quantidade e distância de itens – Outro aspecto que torna a cena complexa é a quantidade e o espaçamento de itens diferentes que a criança consegue distinguir.
Ela pode identificar uma figura conhecida disposta sobre a mesa, mas deixa de reconhecê-la quando esta mesma figura aparece entre outras.

 

Concorrência de estímulos – Da mesma forma, brinquedos com sons, ambientes com pessoas falando ao fundo, o toque de alguém, o balanço e o controle corporal não são apenas uma distração. São fatores que contribuem para a essa complexidade de estímulos sensoriais.
Crianças com deficiência visual cortical sustentam melhor seu foco visual quando apresentado cada estímulo sequencialmente, do que simultaneamente.

 

Complexidade do rosto humano – Reconhecimento de faces também são complexos para essas crianças, que evitam contato direto.
É difícil dar saliência aos detalhes que são únicos de cada fisionomia, diante de expressões faciais e movimentos de cabeça que alteram a feição e a forma como os cabelos emolduram o rosto. Mesmo as que olham cara a cara, podem de fato não discriminar quem é sem o reconhecimento da voz.

 

Visualização à distância – É possível que a criança se aproxime de um objeto ou o aproxime dos olhos para reduzir a complexidade do fundo. Assim, reduz o número de elementos visuais em seu campo visual

complexidade visual
quantidade de itens
complexidade do rosto humano

Características marcantes e pensamento comparativo para o ensino da criança com deficiência visual cortical

Aquele gato já beeem conhecido… O que ele tem a ver com o pato?

 

Como é um gato? Quais as características marcantes e que lhe são peculiares? Rapidamente, listei algumas:

  • As orelhas são pontudas, em forma triangular, lado a lado sobre a cabeça
  • Nos olhos a pupila parece uma fenda
  • O nariz parece formar um triângulo
  • Tem bigodes longos e espetados
  • A boca é pequena
  • O corpo é coberto com pelos macios
  • O rabo é comprido
  • Tem patas para andar
descrição de características marcantes

Como demonstrado, os destaques das principais características físicas do gato na cor de preferência da criança (geralmente vermelha ou amarelo vibrantes) é um modelo de como ajudar a criança a interpretar o que vê.

Mais: comparar também é parte do reconhecimento. Afinal, o que o gato tem a ver com o pato? Para muitos pais, terapeutas e professores que seguem as orientações da Dra. Christine, conversar demonstrando as características relevantes das coisas e as comparar com as de mesma categoria (ou correlatas) é quase uma segunda linguagem. É a forma de falar com a criança e dar comandos a ela: “Para comer pegue a colher. (pausa) A colher tem a ponta arredondada. (pausa) “O garfo tem espaços entre os quatro dentes pontudos e não serve para tomar sopa”.

Esse é um exercício contínuo para ajudar a criança com deficiência visual cortical a dar sentido às coisas. Com isso, ela adquire habilidades de classificação, com respeito a conceitos de igual e diferente. Ela aprende a analisar e a incorporar a linguagem comparativa nas interações e instruções para ação. 

Lembre-se:

  • Começar com um objeto concreto sobre um fundo neutro ou em uma base retroiluminada, um a um, partes por partes, aumentando o número de características destacadas aos poucos.
  • Ao contrário da maioria das crianças que olham com curiosidade e mais atenção para algo novo que surge em seu campo visual, aquelas com DVC respondem melhor a coisas que já viram repetidas vezes.
  • A criança já está acostumada à figura do gato? Reconhece suas características e percebe as diferenças em relação à outro animal? Então, o gato pode ser apresentado em contextos diferentes, com aumento gradual da complexidade do fundo em que está inserido e em figuras 2D.

Avaliação da criança com deficiência visual cortical

Cada caso é um caso! A Dra. Christine Roman estabeleceu um instrumento de avaliação específico, em intervalos que variam desde a presença de mínima resposta visual até a uma resposta quase próxima do que seria esperado.

Esses intervalos compreendem três estágios da DVC, por isso é comum ouvir falar das fases I, II ou III.

  • Fase I – para a primeira fase ela orienta um programa voltado à construção de um comportamento ou uma resposta visual aos estímulos.
  • Fase II – para a segunda, a integração da visão com a função, sustentando a fixação visual para manipular, agir e reagir ao estímulo. O objetivo vai além do olhar, auxiliando na interpretação da informação visual (cognição).
  • Fase III – para a terceira fase, busca-se um refinamento das habilidades adquiridas e da discriminação de detalhes para a alfabetização da criança.

Somente após a avaliação o terapeuta deve decidir que tipos de complexidade visual a criança consegue tolerar e como gradativamente evoluir nessa e em outras questões.

O mais importante: evoluir! Sim, talvez não seja no mesmo tempo de outras crianças, mas vocês pais, professores e terapeutas terão o SEU MOMENTO. E vibrarão por cada conquista.

 

Ah… o gato foi um mero exemplo… pense nas formas básicas e nos objetos e brinquedos de uso cotidiano da criança para começar!

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